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sábado, 25 de dezembro de 2010

Era uma vez... - Parte IV

Perdi a noção do tempo. Estava inconsciente, não sabia se tinha passado um segundo, um minuto ou uma hora. Tentei abrir os olhos, mas em vão. Ainda sentia os ouvidos entorpecidos, parecia que todos os meus sentidos estavam adormecidos. Tentei mexer-me mas não consegui. A dor aguda parecia consumir-me toda a energia. Estava com aquela sensação de estar num precipício, e a dor empurrava-me cada vez mais para o abismo. Estava à beira do colapso.
Repentinamente, estava sentado numa sala de cinema, completamente vazia. Não tinha mais dores, e sentia-me bem. Olho para a tela, e vi o filme. Não era um filme qualquer. Eram todos os momentos que para o bem ou para o mal, me tinham marcado. Ali fiquei, no que me pareceram ao mesmo tempo horas e simples segundos. Fiquei como que hipnotizado, a ver tudo aquilo. Vi pessoas que já não via há muitos anos, pessoas que via todos os dias e pessoas que nunca mais voltaria a ver. Vi momentos que me fizeram sorrir, momentos que me levaram a chorar, e tantos, tantos momentos. Mas aí caí na realidade: como seria possível eu estar ali, quando estava a caminho de casa no meu carro? Tinha a reunião na manhã seguinte, precisava descansar, e não sabia como tinha ido ali parar. Olhei para o meu relógio, eram 3h45, mas reparei que o ponteiro dos segundos estava parado. Mais uma coisa que me deixava intrigado. Eu sabia que a última vez que tinha visto as horas eram precisamente 3h45. Como seria possível? Eu estava completamente desnorteado. Não sabia como tinha ido ali parar, não sabia como sair dali, não sabia como tinham aquelas imagens e muito menos sabia o que estava ali a fazer.
- Tantas perguntas nessa cabeça, Filipe. - Disse uma voz, vinda lá do fundo.
Era uma voz de homem, serena mas que não deixava de ser masculina. Procurei o seu dono, mas não vi ninguém. Nem um único movimento, nada.
- Quem está aí? - Perguntei eu.
Mal acabo de dizer isto, vejo uma luz, intensa, oriunda do que eu calculei ser a porta de entrada.
- Isso... Isso é uma pergunta difícil de responder.
Vejo uma figura, não a sair da luz, mas sim, a trazê-la para perto de mim. A cada passo que o sujeito dava, sentia uma paz interior crescente, cada vez mais intensa. Ele caminhava até mim, lentamente, enquanto a luz se ia tornando gradualmente mais suportável à vista. Era realmente um homem, que aparentava ser de meia idade. Os cabelos eram castanhos, assim como a sua barba. A sua expressão era afável, e irradiava serenidade, muito devido ao seu vestuário, todo de branco. Sentou-se a meu lado, e antes que pudesse dizer o que quer que fosse, disse-me:
- Filipe, Filipe, que belo trabalho que foste arranjar hum?
- Eu... Eu... Eu não sei o que quer dizer com isso... Onde estou? Como vim aqui parar? Quem ...
- Calma. Tudo a seu tempo. - Interrompeu-me ele. - Hoje tiveste um dia e tanto, não foi? - constatou ele, apontando para a tela.
Passavam agora as imagens do meu dia: o acordar, sair de casa, ir para a empresa, almoçar... Tudo. O meu cérebro estava todo embrulhado. Eu sabia o que era aquilo. Mas não queria acreditar. Não podia estar a acontecer o que me estava a passar pela cabeça. Simplesmente não podia ser. Quando olho para o ecrã, vejo-me a conduzir. Vejo o carro a vir em contra-mão, a buzinar e a fazer-me ir contra uma árvore na berma da estrada. Senti um aperto no coração. Aquilo estava mesmo a acontecer-me.
- Pois é Filipe, isto está mesmo a acontecer. O outro carro ia em contra-mão, e tu, para te desviar dele, sofreste um acidente. Estás entre a vida e a morte. - disse-me, como que lendo os meus pensamentos.
- Entre a vida e a morte? Mas como estou aqui...? - perguntei eu, diminuindo o tom de voz, concluindo - então tu és...?
- Isso mesmo. Não diria em carne e osso, mas sim. Sou eu. - respondeu ele, sorrindo.
Eu não podia acreditar no que estava a acontecer. Eu estava ali, meio morto, meio vivo, e com Ele. Eu sempre fora um pouco descrente numa existência divina, apesar de sempre ter acreditado que existia algo superior a nós.
- Então tu és mesmo Deus?
Senti-me estúpido a perguntá-lo, mas era tudo demasiado surreal para acreditar assim à primeira.
- Deus, Alá, Jeová, sei lá. Tenho tantos nomes, nem sei se me lembro de todos eles. -respondeu, argumentando - A verdade é que sou só um, só uma figura, um só. Mas vocês mortais, humanos, têm de inventar sempre algo para se separarem, para terem mais um motivo para criar conflitos. Eu tentei, mas não vos consegui criar à minha imagem, como os cristãos fazem querer. Mas vá, chega de conversa fiada, acho que estás mais interessado em saber como e porquê estás aqui. - concluiu.
- Sim, eu... eu não mereço, eu... ainda tenho tanto por viver, porquê? Desculpa mas não consigo entender...
- Eu entendo as tuas dúvidas. Não és o primeiro, e duvido que sejas arrogante o suficiente para pensar que serás o último. Tudo acontece por um motivo. E tu, e tudo o que te acontece, não é excepção. Repara, fizeste as contas do tempo que tens trabalhado, neste último ano? E o tempo que passas com a tua família?
Mais uma vez passavam imagens no ecrã. Agora imagens que eu nunca tinha visto. Vi o primeiro aniversário do meu filho mais novo. Estavam todos alegres, os seus amigos estavam lá todos, e ele soprou as velas do bolo, mas sem sorrir. Vejo-o perguntar à mãe:
- Papá? Papá?
- O papá não consegui vir a tempo filho...
Vi a decepção no seu olhar. Não sabia como era possível um bebé tão novo ser tão expressivo. Senti uma lágrima correr-me o rosto. Como podia eu ter faltado a este momento?
- Estavas no Porto, para fechar um negócio. Podias ter dito que não podias ir, mas não o fizeste. Tens aí o resultado.
De seguida, vejo o dia em que o mais velho tinha ganho a taça de campeão de juniores de futebol. Ele recebe a bola, finta um defesa e marca um golo. Toda a sua equipa estava de volta dele, a festejar. O olhar dele percorria a bancada. Estava à minha procura, mas eu não estava lá. Mais uma vez a mãe acenou com a cabeça, dizendo que não. Mais uma vez, o pai não estava lá.
- Eu lembro-me disto. Fiquei retido em Frankfurt por causa do mau tempo que fazia na Alemanha. - disse eu, cabisbaixo. Estava a aperceber-me de tudo o que tinha perdido.
- E muitos mais podia mostrar-te, mas acho que percebeste o que quero com isto. É óbvio que o dinheiro é muito importante. Providencia alimento, conforto, educação... Mas será que a tua ausência não é um preço demasiado alto para eles?
- Eu... Eu tive uma infância complicada. Passei fome. Nunca tive uma vida muito confortável. Tive de aprender desde cedo a viver com pouco, e não queria o mesmo para os meus filhos. Eu sei que o dinheiro não é o mais importante. Sou a prova disso. Vim do nada. Mas tudo o que passei, guardei para mim. Cresci com isso. Foi tudo isso que me fez ser o que sou. Mas esse preço para mim foi alto demais...
- Talvez. Mas se não passasses por tudo aquilo, como serias hoje? Pensaste nisso? Nada acontece por acaso. Eu sei o que faço. Por isso é que estás aqui. Quero fazer-te ver as coisas de forma diferente. Agora já chega. Espero que tenhas aprendido a lição!
E antes que eu pudesse dizer o que quer que fosse, tudo se desvaneceu, como se de fumo se tratasse. Senti o ar encher-me os pulmões novamente. Lentamente, comecei a ouvir o som que me rodeava, e sentia a dor voltar. Os meus sentidos voltaram a ligar-se, e pensei para mim:
- Estou vivo!

Continua (...)

quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

Era uma vez... - Parte III

A manhã passou a voar. Por entre papéis e contas, telefonemas e e-mails não parei um segundo. Fiquei impressionado comigo mesmo com a perspicácia com que respondia a tudo. Era como se estivesse em piloto automático. Quando dei por mim já poucos minutos faltavam para as duas horas da tarde, muito por causa do roncar de fome do estômago. Levantei-me, agarrei no casaco e saí. Fui ao restaurante que ficava na esquina da rua da empresa, onde eu costumava almoçar. Olhei para a ementa que estava cá fora e optei logo pelo Bacalhau com Natas.
- Não é tão bom quanto o da minha mãe, mas, acho que fora de casa deve ser o melhor que comi. - Pensei para mim.
Entrei e cumprimentei a D. Mena, a dona do restaurante. Ela já sabia que quando era o bacalhau era para caprichar na minha dose.
- De quando não vale ser cliente frequente.
Sentei-me na mesa do costume, e logo de seguida o Eduardo, o empregado levou-me o jarro de vinho da casa, como sempre.
- O Bacalhauzinho está a sair Dr., e olhe que hoje a D. Mena caprichou!
Sorri. Sabia que a comida era sempre boa ali, independentemente do que fosse. Nisto chegou o prato, e realmente o Eduardo tinha razão, a D. Mena tinha mesmo caprichado. Seguiu-se a sobremesa: semi-frio de caramelo, que, como tudo o resto, estava divinal. Dirigi-me então para a caixa para pagar, enquanto procurava a carteira nos bolsos do casaco, sendo interrompido pelo gesto de ordem da D. Mena, enquanto dizia:
- Dr. deixe lá isso, hoje fica por conta da casa, é a prenda de Natal.
- Oh D. Mena, deixe-se dessas coisas, então com um almoço destes, nem posso pagar? - respondi, em tom de brincadeira.
- Paga para a próxima, deixe lá. É a minha maneira de lhe desejar um Santo Natal, o Dr. merece!
- Obrigado, um Bom Natal para si também! - disse eu, enquanto saía.
Fui então para o escritório, já estava quase na hora da reunião importante, e eu ainda tinha de verificar os últimos números. Quando cheguei já estava a Maria à minha espera, com os papéis na mão, começando logo a disparar:
- Está tudo aqui Dr. - disse, passando-me uma pasta cheia de papéis - já estão todos na sala à sua espera, boa sorte!
- Obrigado, bem preciso Maria, bem preciso!
Nisto dirigi-me para a sala de reuniões, mas, antes de entrar, parei, respirei fundo e disse para os meus botões:
- Calma, tu és capaz.
Entrei. Na sala estavam cerca de uma dezena de accionistas. Observei-os a todos num segundo, fazendo como que um reconhecimento facial, parando num em específico: o Dias. Era um dos maiores accionistas da empresa, que me antecedeu no cargo da Administração. A nossa relação não era a melhor. Ele tinha sido destituído do cargo na Assembleia de Accionistas por suspeitas de desvios de fundos, e tinha um ódio de estimação por mim, apesar de eu não saber porquê, sentimento que ele nunca teve qualquer problema em demonstrar.
- Ora muito boa tarde caros amigos! - saudei eu toda a sala.
Todos me cumprimentaram de volta, quase que em coro, enquanto dava os apertos de mão de praxe. Demos então início à reunião. A Maria estava a um canto, redigindo a acta, enquanto eu mostrava alguns gráficos e tabelas, percentagens e valores devidamente explicados e esmiuçados. O Dias tentou o quanto pôde fazer-me perguntas difíceis para ver se me atrapalhava, mas eu já estava preparado, tinha estado duas semanas a ver e rever aquela apresentação, não deixando nenhum número ou simples vírgula por acaso, porque já sabia que essa seria a postura dele. Mais uma vez tinha aquela sensação de piloto automático. As palavras saíam-me da boca sem que eu desse por isso, os gestos e a postura eram involuntariamente correctos. Tudo corria às mil maravilhas. Lá fora a chuva caía intensamente, empurrada violentamente contra os vidros pela força do vento, não parecendo querer parar. Passaram duas horas desde que tinha entrado na sala, e o ar começava a tornar-se pesado, muito por conta do calor causado por um aquecimento talvez ligado com potência a mais. Eu já tinha tirado o casaco e alargado um bocado o nó da gravata, assim como todos os presentes. Apesar de terem apreciado a minha apresentação, sentiram que haviam algumas arestas a limar, o que arrastou mais ainda a reunião. Enquanto dava mais um gole na garrafa de água, que já era a quarta, o Teixeira pigarreou, dizendo:
- Bem, parece-me que há aqui alguns valores que têm que ser revistos, nomeadamente algumas taxas e projecções. Amanhã voltaremos a reunir-nos, para verificar se esses valores estão mais adequados. Dr. Filipe, quero isso pronto amanhã às 9h no meu e-mail para dar uma vista de olhos, às 10h voltamos aqui para analisar, certo?
- Com certeza Dr. Teixeira, vou começar a tratar disso de seguida. - respondi-lhe, acenando com a cabeça.
- Bem, posto isto, até amanhã às 10h.
O Teixeira acabou de falar e toda a gente se levantou, dirigindo-se para a saída após assinar a acta. Eu e a Maria ficámos para trás, sabíamos o que nos esperava: uma longa noite de trabalho. Recolhi os meus papéis com algumas anotações e fui em passo apressado, quando sinto o telemóvel vibrar, dando conta de uma nova mensagem do meu amor, dizendo: "Como correu a reunião? Espero que bem. Beijo, Amo-te". Suspirei, e comecei a digitar uma nova mensagem de texto. "Correu bem, mas tenho valores a rectificar, não vou jantar a casa e não esperes por mim acordada, a noite hoje vai ser longa. Beijo, Amo-te". Nisto pedi à Maria para não me passar chamadas e não deixar ninguém entrar na minha sala. Lá fora já era noite fechada, apesar de ainda serem apenas 6 e meia da tarde. Comecei a minha odisseia para rectificar o que me tinham solicitado. As horas passavam e eu já ia no terceiro café. Estava a ser mais complicado do que eu julgava, pois pequenas alterações fizeram com que tivesse de reestruturar tudo novamente. Perdi a conta das vezes em que esfreguei os olhos e lutei contra o cansaço, até que por fim acabei.
- Anexar... ficheiro... e pronto, já está.
Senti a sensação de dever cumprido, sorri e encostei-me na cadeira, e fechei os olhos, no que me pareceu uma pequena fracção de segundo, e adormeci. Acordei de repente, e vi que já passavam das 3h. Lá fora continuava o temporal. Fui a correr para o carro, mas isso não impediu que ficasse completamente molhado. Arranquei. Seguia o caminho para casa quando ouço o alerta de e-mail, e verifico a minha caixa de correio, era a minha irmã: "Conta comigo para a ceia e levo o Tom comigo, até segunda". Sorri, finalmente ia conhecer o "bife" que tinha encantado a minha irmã. Subitamente, vejo um clarão à minha frente, uma buzina e dou uma guinada no carro, embatendo contra algo. Sinto um impacto forte. A minha cabeça foi fortemente projectada contra o volante, seguindo-se de uma dor aguda. Senti-me lentamente a perder os sentidos, perdendo a sensibilidade no corpo todo. A visão ficou gradualmente turva, e senti um zumbido nos ouvidos. Comecei a ouvir vozes, que pareciam cada vez mais longínquas. Não consegui perceber o que disseram, até que perdi completamente os sentidos.

Continua(...)

quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

Era uma vez... - Parte II

Depois de um pequeno-almoço em família, voltei ao quarto e escolhi a roupa que ia vestir. Optei pelo fato preto, que eu de alguma forma sabia que me ia dar um ar mais credível e seguro para a reunião de logo à tarde. Depois de escolhida a roupa, fui tomar banho, e despachar-me para sair. Olhei para as horas e vi que já estava a ficar atrasado, e que àquela hora era provável vir a apanhar mais trânsito. Despedi-me da família, agarrei nas chaves de casa e do carro que estavam na mesa do hall de entrada como sempre. Saí e dei por mim, mais uma vez, parado a pensar:
- E para onde é que eu vou agora? Que é que vou fazer?
Tudo perguntas às quais eu sentia que sabia a resposta, mas não me lembrava, como se estivesse "debaixo da língua". Pensei para mim:
- Há de ser como tudo o resto até agora.
Entrei no carro. Senti-me bem. Era confortável, com tudo do mais moderno que havia. Até a esta data, não tinha a carta, nem nunca tinha conduzido, mas, enquanto pensava nisto, dei por mim a arrancar com o carro e a seguir viagem a caminho da empresa. Ia a meio caminho quando apanho o sinal vermelho.
- Bolas! - Pensei eu - Este semáforo demora sempre uma eternidade a ficar verde.
Olhei novamente para o meu relógio, e vi que afinal não estava tão atrasado quando pensava. Fiquei a pensar no valor que aquele relógio tinha para mim. Tinha-me sido oferecido pela minha mãe no dia em que acabei a licenciatura. Já tinha trocado várias vezes a bracelete, o visor um sem número de pilhas. Eu sabia que já tinha gasto mais nele do que o seu próprio valor, mas isso não importava. O verdadeiro valor dele era sentimental, por tudo aquilo que representava. Representava todo o esforço que eu e a minha mãe fizemos para eu progredir nos estudos, me instruir e poder ter um futuro melhor. Senti a minha mente a divagar, de recordações e recordações que eu sabia serem minhas, mas que sentia ainda não as ter vivido realmente. Eram como um sonho bom. Lembrei-me do nascimento do meu primeiro filho. Da carga emocional que senti naquele momento. Antes disso, só tinha sentido algo parecido com o nascimento da minha irmã. Nisto, ouço uma buzina, que me faz voltar novamente à realidade.
- Já está verde ó camelo, acorda para a vida. - Disse um típico condutor português. Realmente, há coisas que por mais tempo que passe, não mudam.
Finalmente cheguei à empresa. Accionei o sistema de estacionamento automático enquanto via se no e-mail já tinha a resposta da minha irmã, para saber se vinha connosco passar o Natal. Ela estava a trabalhar numa filial da empresa em Londres. Ainda não tinha recebido nada. Estacionado o carro, subi até ao 12.º andar, onde ficava o meu escritório.
- Bom dia Dr. Filipe. - disse a Maria, a secretária - Tem aqueles contratos da Sonae para analisar, é urgente. E não se esqueça que logo às 15h tem a reunião acerca daquele investimento na Madeira. - Continuou, apressadamente.
- Obrigado Maria, não se esqueça de insistir com o Valentim para enviar os relatórios, temos que decidir se avançamos para a compra das acções ou não. - Respondi apressadamente, sem saber de onde saiam todas aquelas palavras, enquanto caminhava em direcção da minha sala.
Entrei, coloquei o casaco no cabide e dirigi-me para a minha mesa. Em cima da mesa, estavam três fotografias emolduradas: uma da minha mãe e irmã comigo, no dia em que a minha irmã acabara o curso; outra dos meus filhos; por fim, uma da minha mulher. Eu sabia que em momentos mais complicados no trabalho, ver aquelas fotografias reforçava a minha energia e atenuava o cansaço.

Continua(...)

terça-feira, 21 de dezembro de 2010

Era uma vez...

Acordei. Vi as horas, eram 8 em ponto. Levantei-me, e dirigi-me praticamente de olhos fechados até à casa de banho. Fiz o meu chichi matinal. Normal. Fui então até ao lavatório, lavei as mãos e o rosto. Aí é que senti a diferença. Olhei-me ao espelho, e fitei o meu rosto. Sabia que era eu, mas diferente. As minhas feições estavam mais envelhecidas, e já via alguns cabelos brancos. Foi então que me apercebi de tudo: olhei em meu redor, vi que a casa de banho era outra, que sentia ao mesmo tempo conhecer tão bem, mas sem nunca ter visto. Dirigi-me ao quarto, e a sensação era a mesma. Era um quarto espaçoso, com cores claras, entre o branco e o bege, que com a luz do sol o faziam maior e arejado. A mobília aparentava ser moderna, mas não tão abstracta como a maior parte que se via. E eu parei durante um minuto, a tentar perceber o que significava tudo aquilo. Senti o meu cérebro dar um nó. Como era possível algo ser ao mesmo tempo desconhecido e tão familiar? Belisquei-me, pensando para ver se era mesmo verdade, ou apenas mais um sonho como tantos outros, apesar de não tão abstracto e sem sentido como era costume. Enquanto acabava o meu raciocínio, ouvi passos. Fiquei sem saber o que fazer. Se ficar ali, se me esconder. Senti-me estúpido, ignorante, por não saber o que fazer com tanta informação ao mesmo tempo. A porta abriu-se, e a sensação do desconhecido-conhecido repetiu-se. Eu sabia quem ela era, sentia que a conhecia quase tão bem como a mim mesmo, que a amava, e que ela me amava a mim. Sem palavras, beijámo-nos num beijo que eu tão bem conhecia, mesmo sem saber como. Ela sorriu.
- Bom dia meu amor.
Senti aquilo como se fosse uma rotina. Retribui:
- Bom dia amor.
Assim que acabo de dizer isto, ouço vários passos que pareciam de várias pessoas, a um ritmo elevado. Olho para a porta novamente, e vejo entrar 3 criancinhas. Senti o meu coração disparar. Os meus olhos não aguentaram a emoção, e uma lágrima solitária percorreu o meu rosto.Baixei-me e abracei-os. Como tudo o resto, não sabia como processar a informação. Mas eu sabia de uma coisa: eram os meus filhos. O maior, de oito anos, era tal e qual como eu com aquela idade, pelo menos era o que a minha mãe dizia, apesar de me perguntar como sabia disso.

Continua(...)

quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

"Only God Can Jugde Me"

Vou abir um novo tipo de tópico, intitulado "Personalidades". O seu objectivo é falar de pessoas que, de uma forma ou outra, mudaram o mundo de alguma forma.

Vou começar por um nome bem conhecido por muitos. Tupac Shakur. Porquê? Bem, hoje andava numa de variar um bocado na música, e fui esbarrar com as músicas de Tupac Shakur. Já lá vão 14 anos desde a sua morte (ainda envolta em mistério) mas mesmo assim, a repercussão das suas músicas e poesias ainda hoje se sente, é fantástico. Tupac é um exemplo da força da música. Ainda hoje as suas músicas são referência para muitos e muitos rappers.
Nascido na prisão, em 1971, uma vez que Afeni Shakur, a mãe, pertencia a um movimento de contra o preconceito aos Afro-americanos. Devido à condenação do padrasto a 60 anos de prisão, por roubar um carro e assassinar a sua proprietária, Tupac cresceu na rua, sem uma figura paterna a seguir, à excepção dos chulos e traficantes das esquinas, o que o levou a traficar no futuro. Em 1995 foi condenado a 4 anos e meio de prisão por alegada violação, que Tupac afirmava ter sido um plano engendrado para o prejudicar. Era uma das figuras mais sonantes da eterna "guerra" East Coast-West Cost, que o levou a ter diversos inimigos, sendo os mais conhecidos Jay-Z (actual marido de Beyoncé), Dr. Dre. e Notorious B.I.G. (morto também a tiro, a 9 de Março de 1997), artista que ajudou a lançar, mas que Pac achava estar envolvido no atentado de que foi vítima, em 1994, nos estúdios da Bad Boy Records.
Tupac não se limitava a temas de "Thug Life". A sua música falava de problemas reais, problemas que assistia nas ruas.
Acabou por ser baleado mortalmente em 1996. Tupac figura no livro de Recordes do Guiness como o Rapper mais bem sucedido do mundo até agora.
Este foi um pequeno resumo, muito pequeno mesmo que adaptei do site www.2pacbr.com.

Ficam aqui algumas das suas frases mais conhecidas:
"Deviam ser dadas aulas sobre o Apartheid, aulas sobre o porquê de existir tanta gente a passar fome. Em vez disso, insistem em dar aulas de educação física";
"Um cobarde morre de mil maneiras, um soldado, de uma só.";
"Prefiro morrer como um homem que viver como um cobarde.";
"Apenas Deus me pode julgar.";
"Isto acontece sempre. Todos os negros que mudam o mundo de alguma forma morrem. Mas nunca morrem de maneiras normais, morrem sempre de forma violenta.";
"A única coisa que o Homem consegue a dormir é sonhar.";
"A minha música não é para qualquer um. É feita para os soldados das ruas. Não é música para festas, para dançar, é uma música espiritual.".

Para finalizar, uma música de Tupac que gosto bastante: Tupac - Changes.

terça-feira, 14 de dezembro de 2010

Que música escutas tão atentamente

Que música escutas tão atentamente
que não dás por mim?
Que bosque, ou rio, ou mar?
Ou é dentro de ti
que tudo canta ainda?
Queria falar contigo,
dizer-te apenas que estou aqui,
mas tenho medo,
medo que toda a música cesse
e tu não possas mais olhar as rosas.
Medo de quebrar o fio
com que teces os dias sem memória.
Com que palavras
ou beijos ou lágrimas
se acordam os mortos sem os ferir,
sem os trazer a esta espuma negra
onde corpos e corpos se repetem,
parcimoniosamente, no meio de sombras?
Deixa-te estar assim,
ó cheia de doçura,
sentada, olhando as rosas,
e tão alheia
que nem dás por mim.

Eugénio de Andrade

sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

Ilha

Existe, algures, longe de olhos alheios, uma ilha. As suas coordenadas, não estão definidas. A sua localização não aparece no Google Maps, ou em qualquer outro mapa. Apenas eu e tu sabemos onde fica. Basta-me fechar os olhos, e parece que a vejo tão nitidamente como se estivesse diante dos meus olhos, agora abertos. A água, pura, cristalina, completamente transparente, convida ao mergulho, ajudada pela temperatura quente mas agradável proporcionada por um céu de um azul aclarado pelo sol quente. A areia é branca, e não magoa os pés. Ali mais adiante, vejo a nossa tão simples quanto bela cabana. Tantos e bons foram os serões que passámos sentados na sua varanda, conversando horas a fio, conjugando tantos e tantos verbos no futuro, imaginando como seria. Perdi a conta das vezes que ali vimos o pôr-do-sol, juntamente com outras tantas que vimos o sol nascer. Ali, isolados de tudo e de todos, à excepção um do outro, não haviam problemas. Era, é, e será, a nossa forma de escapar. Lá estamos juntos, revertendo a distância que nos separa e nos une, numa contradição que apenas nós sabemos o porquê de fazer sentido. Não temos registo de propriedade, mas sabemos que a ilha é nossa, não minha, não tua, nossa. Nem faria sentido se doutra forma fosse. A ilha , para mim, não existe sem ti, e, para ti, a ilha não existe sem mim. Fomos nós que a criámos, juntos, e lhe demos um toque do que é nosso. Tudo nela faz parte de nós, assim como cada parte de nós se integra nela. E assim, é a ilha, aquela que existe algures, longe de olhos alheios, aquela cujas coordenadas não estão definidas, cuja localização não aparece no Google Maps, ou em qualquer outro mapa, aquela que apenas eu e tu sabemos onde fica. A ilha.

quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

Frio interior

Está a chegar o Inverno, e sinto frio. Não o frio que todos sentem, ou pelo menos o frio de que poderão estar a pensar. Um frio diferente. Não do que dizem ser psicológico. Um frio que não me faz tremer. Um frio que não me faz bater o dente. Mas sim um frio que me congela a alma: O frio de não amar. Não amo, não daquela forma. Não sinto aquele amor de ficar com o friozinho na barriga. Não sinto aquele amor que nos faz sorrir estupidamente às vezes com um simples olhar. Aquele que nos faz voar sem tirar os pés do chão, aquele que sem nos fazer voar nos tira o chão dos pés. Amar é bom, mesmo que por vezes pense o contrário. Amar traz-nos aquela vontade de viver, de acordar de manhã e ver aquela pessoa especial, de olhar para ela e admirar a beleza do seu sorriso, sentir que estamos ali, amamos, e somos amados. Mas o contrário custa. Sentir que não amamos. Sentir que também não somos amados. Sentir que afinal, não sentimos nada. Já não há o brilho. Não há o calor. Há o vazio.
Isto faz-me lembrar uma música, Omarion - Ice Box. No refrão diz "I've got this Ice Box where my heart used to be", ou seja, "eu tenho esta caixa de gelo, onde o meu coração costumava estar". É assim que me sinto. É como se tivesse o meu coração congelado, sem vida. É difícil passar na rua e ver mais um casal de namorados, feliz, de mãos dadas, com aquela alegria que só quem ama sente e irradia. Chego a invejá-los. Mas a vida é assim.

terça-feira, 7 de dezembro de 2010

Nada se cria, nada se perde, tudo se transforma

"Na Natureza, nada se cria, nada se perde, tudo se transforma". É um dos grandes princípios da química dado por Lavoisier. Mas será que só na química, por entre átomos e moléculas, equações e experiências, que isto se aplica? Julgo que não.

A vida é Natureza. Assim, tal como na Natureza, na vida também nada se cria, nada se perde, tudo se transforma. Tudo começa com a nossa concepção. Não somos criados, mas sim, a transformação que um óvulo e um espermatozóide sofrem ao unir-se. Passam alguns anos e vemos o mundo com outros olhos, vendo através de olhos que se transformaram, as transformações do que nos rodeia. Isto são transformações físicas, visíveis, mas e aquelas abstractas, incontáveis, sem forma ou cor? Será que também se transformam? Julgo que sim.

Uma amizade, por exemplo. Todos temos amigos e amigas, mas sabemos que todos são diferentes, e têm um lugar diferente na nossa vida. Aí também há transformação. Por vezes um mero amigo de conversa da treta, torna-se num grande amigo. Apareceu na altura certa. A amizade transformou-se, amadureceu, fortaleceu. Porém, às vezes uma atitude errada, uma palavra mal medida, transforma a amizade. Esmorece-a, mas não a apaga. Transforma-a. Pode não ser amizade, mas existe. Existe a memória. Os momentos, bons ou maus que ficaram. Isso nunca se perde.

O que somos não é aquilo que pensamos ter criado, mas sim, tudo aquilo que transformámos, tudo aquilo que nos transformou. Não é preciso ser-se cientista para entender isso.

segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

Eras tu

O vazio era tudo o que me preenchia. O ar não se deixava respirar, a luz não reflectia as cores da paisagem, como que se me fizesse viver numa realidade paralela, sem cor. O coração parecia não bater, o sangue parecia estagnado por entre veias e artérias, incitando à inércia os músculos todos do meu corpo. Sentia que nada fazia sentido. Estava só e perdido. Não caminhava por não ter destino. Não tinha sequer um túnel, para poder imaginar como seria a luz ao seu fundo. Sentia que tudo não era nada, e era esse nada que representava tudo.

Mas aí aparecias tu.

Sorrindo para mim. Abraçando-me. Aquecendo o meu ser. Chamando-me de amor. A vida voltava a ter cor, muito mais do que alguma vez tivera, superando todo e qualquer sonho alguma vez sonhado. O coração batia freneticamente, as veias palpitavam ao ritmo cardíaco, agora estimulando os músculos. Sentia-me no topo do mundo. Amava-te. Não era um amor de viagem. Não era amor de férias. Não era amor de verão, inverno, ou qualquer outra estação. Era amor. Puro e simples. Nu e cru. Simplesmente, amor.

Eras a Luz. Eras o Calor. Eras a Cor. Eras tudo. Passei a depender de ti. Eras mais que o ar que eu respirava, eras a força que fazia com que os pulmões trabalhassem. Eras tu...

Mas aí, errei eu.

Acreditei. Entreguei-me. Fiz o que pude e o que não pude. Fiz o que devia, mas principalmente, o que não devia. Amei-te. Não me arrependo do que fiz por ti, para ti. Passaram-se noites e noites em que não me saíste do pensamento. Foram tempos em que eras só tu, apenas tu. Fizeste e refizeste. Usaste e abusaste. E eu ali. Aguentei. Até ao dia. Dia esse em que disse para mim que te ia esquecer. Dia esse que foi o princípio do fim.

Mas aí, restou o sentimento. O sentimento de que, aconteça o que acontecer, tu foste, és e serás, quem mais amei em toda a minha vida.

Para ser grande, sê inteiro

Para ser grande, sê inteiro

Para ser grande, sê inteiro: nada
Teu exagera ou exclui.
Sê todo em cada coisa. Põe quanto és
No mínimo que fazes.
Assim em cada lago a lua toda
Brilha, porque alta vive

Ricardo Reis

Este é para mim um dos melhores poemas de Fernando Pessoa (embora não conheça muitos, confesso). Não vejo melhor forma de começar um blog que com um poema de um dos maiores poetas que já existiu, razão pela qual, escolhi o seu título para o nome do blog. A mensagem deste poema é clara: temos de dar o máximo tem tudo o que fazemos, seja importante ou não. Talvez seja isso que falta a muita gente, perceber que devemos sempre esforçar-nos em tudo. Por vezes pequenos gestos têm grandes consequências, mesmo sem darmos por isso.

Por isso, criei este blog. A par de outros dois que mantenho (Momentos, Sentimentos, Palavras, de Poesia, e Eu Não Gosto de Fazer a Barba, de parvoíce em geral), decidi criar um terceiro, onde fale de certos sentimentos que não consegui transpor para poesia, nem acho que se enquadre na parvoíce.

Espero que gostem :)